
Fui convidado para traduzir este artigo para a AUA News (edição de novembro de 2025) e decidi compartilhar aqui no blog os pontos mais importantes — porque esse é um tema que merece atenção de pacientes, médicos e gestores de saúde.
O problema em números
Nos últimos 50 anos, homens negros com câncer de próstata apresentaram uma taxa de mortalidade mais que o dobro da observada em seus pares — a maior disparidade racial em mortes por câncer nos Estados Unidos.
Esse excesso de mortalidade resultou em cerca de 1,5 milhão de anos potenciais de vida perdidos em cinco décadas.
Apesar do impacto impressionante, ainda existem poucos esforços em escala nacional para enfrentar os determinantes estruturais, socioambientais, de saúde e biológicos do câncer de próstata nessa população.
Pacientes como parceiros de pesquisa: o BACPAC
Em 2020, foi criado o Colaborativo para Ação contra o Câncer de Próstata em Pessoas de Origem Negra e Africana (BACPAC) , com o objetivo de construir uma infraestrutura para que sobreviventes negros de câncer de próstata participassem das pesquisas como membros de equipe engajados e informados.
Como o estudo foi feito
O primeiro grande projeto do BACPAC buscou compreender os fatores estruturais, sociais, de saúde e de nível do paciente que facilitam ou impedem o acesso ao rastreamento de PSA para a detecção precoce do câncer de próstata entre afrodescendentes. A equipe usou uma abordagem prospectiva de métodos mistos:
- Entrevistas semiestruturadas com 29 homens que se identificam como negros no estado de Washington, conduzidas por um educador de saúde comunitária negro do Fred Hutch Cancer Center — com capacidade de realizá-las com intérprete, se necessário;
- Pesquisa online anônima com 32 urologistas e 31 médicos de atenção primária da região WWAMIO (Washington, Wyoming, Alasca, Montana, Idaho e Oregon), desenvolvida em parceria com a Sociedade de Urologia do Estado de Washington.
O que os homens negros relataram
A análise temática identificou barreiras importantes para o rastreamento de PSA:
- Os médicos de atenção primária funcionam como “guardiões” do acesso ao teste de PSA;
- Muitos desconhecem o aumento da prevalência, incidência e mortalidade do câncer de próstata entre afro-americanos;
- Alguns apresentam atitudes contrárias ao uso do teste de PSA;
- A falta de relações de confiança com os provedores de atenção primária também foi citada como obstáculo.
O que os médicos responderam
Embora ambos os grupos relatassem alta conscientização das diretrizes atuais da USPSTF, os resultados foram reveladores: apenas 6,5% dos médicos de atenção primária acreditavam no valor do teste de PSA ou no papel da detecção precoce na prevenção de mortes relacionadas ao câncer de próstata — contra 70% dos urologistas.
Os médicos de atenção primária também estavam menos familiarizados com os resultados dos grandes ensaios de rastreamento (PLCO e ERSPC) que servem de base de evidências para as diretrizes.
Por que isso importa
Os achados confirmam a percepção dos entrevistados: muitos médicos de atenção primária não valorizam o teste de PSA para a detecção precoce do câncer de próstata — e as diretrizes da USPSTF provavelmente são o motor dessa perspectiva.
Na prática, isso significa que homens negros podem estar ficando sem acesso à detecção precoce justamente no grupo com maior risco de morte pela doença.
O trabalho conduzido pelo BACPAC e pela equipe de pesquisa da Universidade de Washington influenciou a síntese ponderada de evidências para apoiar a tomada de decisão compartilhada entre afro-americanos, seguida pelo desenvolvimento de recomendações de rastreamento específicas pela Prostate Cancer Foundation.
O que vem por aí
A equipe segue com projetos de pesquisa centrados no paciente, em parceria com o BACPAC, para desenvolver ferramentas que apoiem a conscientização e a tomada de decisão informada sobre o rastreamento de PSA — tanto para pacientes negros quanto para seus médicos de atenção primária.